
para ser contemporâneo
para ser eterno
2.
estou a milhas de distância, dentro de um copo vazio.
nada do que era minha vida parece estar presente neste espaço inóspito, mas mesmo assim, nunca me senti tão inteiro.
mesmo com as casas e os carros correndo nas ruas o deserto não vai. o deserto é o estado real. O deserto é a liberdade do presente, a liberdade de quem aprendeu a viver e estabelecer seus próprios princípios. O deserto é o tudo ou nada.
3.
o deserto está fora, mas dentro está a lembrança de mim mesmo como se fosse outro, como se não existisse, como se não fosse o mesmo que está, o mesmo que é. como uma nuvem que passou e deixa sua sombra. sua cortina de chuva, ao longe. A chuva já passou e somente sobra o frescor, o silencio, a calma absoluta .


6.
no tempo em que tinha medo de carregar a responsabilidade pelas minhas próprias escolhas, escolhi ser contemporâneo.
contemporâneo como o grito de um corvo, contemporâneo como o ranger de dentes e o raio de luz solto no espaço- o projétil de uma concepção de mundo fugaz, de uma concepção de mundo interplanetária, que pousou em terreno ingrato.
para ser contemporâneo escolhi deixar todas as lembranças para trás e levar comigo uma janela que apenas aponta em uma direção.
para ser contemporâneo, a roda, para ser contemporâneo, a asa.
o que guardei foi um olhar e um sim. para ser contemporâneo meu sim é ação.
a cultura está em cada instante de ação e de passividade. a cultura é uma energia em construção. a cultura é contemporânea e onipresente.
escolhi cultivar a contemporaneidade, onde nada há de novo.
a primeira particula de luz é a mesma partícula até hoje.
no deserto a partícula de luz se transformou em partícula de areia e todos os grãos de areia podem ser o primeiro e podem ser o último. todos os grãos de areia podem ser luz. todos os grãos de areia podem ser estrela e raio.
7.
um dia eu serei um dinossauro. um dia eu serei uma lenda. um dia eu serei o passado para alguém, mas enquanto isso quero pensar que posso me aproximar do contemporâneo e o contemporâneo é o que sempre foi, o que sempre será . para ser contemporaneo renasci no ontem, para ser contemporâneo sou novo novamente.
para ser eterno sou antigo e busco o antigo, os ossos que perdí há milenios atrás, a árvore que virou pedra, o raio que virou mineral. minha ossada me espera no futuro, com informações que hoje ainda não conheço. para ser contemporâneo, sou o petróleo do futuro, sou o dinossauro, sou o mistério enterrado, ainda não descoberto.
talvez um dia eu me chamasse crowfoot e esse dia ainda virá. o dia em que serei contemporâneo com meu passado e meu futuro ao mesmo tempo, reunido num único momento, num único movimento, sem a interferência do falso novo, do progresso, da assim chamada invenção e da crença em que essa invenção define uma melhora em nossa vida.
neste dia serei eterno.
in:
