Trabalhos apresentados no programa de exposições Centro Universitário Maria Antônia, 2003
LÚCIDA FIGURA
Seria figura se conseguisse desprender-se e saltar fora da superfície pictórica que, então, lhe serviria de fundo. Mas não é bem isso que acontece. Precariamente esboçado, um desenho de formas geométricas surge, acidentalmente na pintura, enganando-nos de relance quanto à profundidade de campo. Par quem vê pelo avesso esse proceder de Leopoldo Ponce é como se a imagem estivesse num riscado de antemão. No fim das contas não são mais do que rasas figuras insinuando-se desajeitadamente em três dimensões. Como emoldurar este estranho desejo de profundidade que conhece bem os limites planos de uma superfície tingida por pigmentos?
É através de colorações brancas que esta incerta espacialidade se define, ora como a cor do suporte de papel emergindo num vazio de pigmento, ora como tinta dissolvendo ou recobrindo uma outra cor. Os brancos atravessam as cores, não como luz que surge dde seu interior, como luminosidade que se esparrama pelas superfícies e dá suavemente a cada coisa vista seu aspecto. Em tons diversos, um branco deposita-se ao lado de outro deles. Como se a claridade pudesse sedimentar-se em camadas, ou acúmulos. Essas pinturas presentificam uma vitalidade maculada, iluminação difusa que contamina as coisas e aloja-se como poeira a recobrir os corpos expostos ao tempo do mundo, singularizando cada ser pela sua opacidade.
Afonso Luz





